terça-feira, 19 de julho de 2011

Shalom Carín - 20

Já é noite e os três amigos estão na varanda da casa de Patrício a tomar vinho, a petiscar alguma coisa e a conversar:
- Sentirei falta deles – fala Sofia.
- Por essas andanças que a gente faz, sempre deixamos e levamos saudade – diz Shalom.
- Convivi pouco com Tânia e Romeu embora tenhamos vivido tantos anos na mesma cidade. Vivemos tão perto de pessoas tão especiais , mas na verdade estamos todos tão distantes uns dos outros... Quanto tempo a gente perde por se fechar em nosso mundinho de merda!... Aí dá nisso: conhecemos pessoas lindas, nos apegamos a elas e em poucos dias, elas se vão.
- Eu te acho tão só, Patrício – comenta Shalom. – Por que não arranja uma companheira? Você é um cara tão bom.
O homem olha para o céu e ri. Depois mira os ciganos com ternura:
- Nunca falo disso com ninguém. É uma coisa muito minha, mas em vocês eu confio e me sinto à vontade para me abrir... Temo arranjar uma companhia aqui, porque não é uma mulher que desejo para partilhar minha vida.
Os dois o contemplam.
- Gosto de homem... Mas isso aqui numa cidade pequena é estranho. De vez em quando pintam até umas aventuras, mas nada sério, nada firme. A gente aqui tem medo do que possam dizer... Tenho um estabelecimento e...
- Você é um dos homens de caráter mais puro que já conheci na vida, Patrício – fala Shalom. – Não me importa se você se deita com homens ou mulheres, mas quem você é.
- Se todos aqui pensassem como você, meu amigo, eu não teria tanto receio de me abrir para viver com um companheiro.
- Que se danem os puritanos! – Diz Sofia com veemência – Eles não te sustentam, não compram tuas roupas, não compram teus remédios, não têm nada com tua vida, homem. O amor é bom e não importa a forma que se apresente. É sempre amor.
Patrício fica pensativo:
- Hum! Que bom ouvir isso!... Eu amo um homem.
- E ele? – Questiona Shalom.
- É doido por mim, sempre me propôs vivermos juntos e não ligarmos para os outros... Mas sou covarde. Ele é mais corajoso do que eu. Até já nos encontramos algumas vezes. É bom! Mas quando ele vem com aquele papo de compromisso, caio fora. Vocês não me rejeitam realmente por eu ser o que eu sou?
- Não – Shalom afaga seus cabelos e seu rosto. – Quando eu era criança, brincava com meus amigos e vivíamos carícias gostosas. Depois de adolescente preferi as mulheres e é um fraco que trago até hoje. Não desejo homem algum e te aceito como você é.
- Eu já vivi paixões com homens e mulheres – fala Sofia. – E com todos eles fui muito feliz. Não vejo razão nem cabimento nessa história de aceitar ou rejeitar alguém tendo como parâmetro o fato de a pessoa estar amando uma pessoa do sexo masculino ou uma do sexo feminino. Penso que você está perdendo tempo, meu querido, se escondendo e se privando da felicidade.
- Não quero levantar bandeira alguma! – fala Patrício.
- Não estou dizendo para você levantar bandeira – rebate Sofia. – Casar-se com o homem que você ama nada tem a ver com levantar bandeira e militar pela causa. Cada pessoa faz o que quer, o que pode, o que está na alma. Não confunda as coisas.
- Qual é o nome dele?
- Marcos. Ele é músico e canta na noite.
- Aquele moreno de voz boa!... Já o vi algumas vezes cantando. Ele é bom – comenta Shalom.
- É ele mesmo.
- Seja feliz, meu amigo. Dê-se essa chance. Nós te amamos – fala Shalom.
Os três se abraçam.
Dois dias depois, os ciganos vão almoçar no restaurante de Patrício e são recebidos carinhosamente, como de costume:
- Tenho um convite a lhes fazer – anuncia o amigo.
- Pois faça – fala Sofia.
- Na sexta-feira, Marcos vai tocar num barzinho. Querem assisti-lo comigo?
- Claro que queremos – responde Shalom.
- Que bom! Vai ser muito bom tê-los comigo.
- E como estão vocês? – Pergunta a cigana.
Patrício sorri matreiro:
- A gente está se entendendo. Aquela conversa com vocês me ajudou a ver muitas coisas que eu não queria enxergar. A vida é curta e bela. Eu quero ser feliz.
- Estamos com você, Patrício – confirma o cigano.

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