terça-feira, 19 de julho de 2011

Sofia - 13


À tarde, o corpo está sendo velado em casa. Uma capela na porta da entrada indica o falecimento. Amigos relembram histórias de defunto; pessoas comentam sobre a cigana e a proximidade de Orlando. Eulália e Joventino também estão presentes.
Num determinado momento, Sofia e Margarida ficam a sós no quarto:
- Suas cartas são fortes, cigana!
- Como você está?
- Anestesiada. Preciso ser forte. Sorte a minha ter você e Orlando comigo.
Nesse momento alguém bate à porta e Margarida manda entrar. É a Irmã Vera. Ao ver Sofia, ela se assusta, mas se recompõe no mesmo instante e vai cumprimentar a enlutada, porém não dirige a palavra à outra que prefere sair do quarto, a fim de evitar constrangimentos.
Durante o sepultamento, Sofia e Orlando não desgrudam de Margarida. Vera se incomoda com isso.
Finalizados os ritos fúnebres, as pessoas se despedem de Margarida. A freira se aproxima dela e praticamente empurra Sofia para lhe falar:
- No que precisar, conte comigo, Margarida e lembre-se que Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida e só Ele salva. Sei que o momento é de dor e é justamente quando estamos fragilizados que Satanás se aproveita e nos leva à perdição.
- Irmã Vera, estou muito bem acompanhada. Pessoas boas estão comigo. Pessoas que me amam. O amor não é o maior mandamento de Cristo? Esta aqui é Sofia.
A freira, com raiva contida, encara a cigana:
- Como vai?
- Apesar dos empurrões da vida, irmã, continuo em pé e firme.
- Isso é bom. Preciso ir. Tenho muito que fazer.
Vera sai apressada. Sofia e Margarida se entreolham e balançam as cabeças.
Sofia, Orlando e os pais dele levam Margarida para a casa. Orlando e os pais ficam umas horas com ela e depois partem. A cigana permanece para pernoitar e isso agrada muito a amiga.
Na sala, Sofia está sentada no sofá e Margarida, deitada, com a cabeça em seu colo. A cigana afaga os cabelos da amiga:
- Como se sente, Margô?
- Oca... É horrível perder alguém. Viver com ele não era fácil, mas me acostumei. Agora sinto um vazio que me rói por dentro.
- Isso passa.
- E o que vou colocar no lugar, cigana? Até mesmo você vai partir quando o vento te chamar. Cadê esse homem “vestido de sol” que não aparece?!
- Será mesmo que não apareceu?
- Orlando?!
- Por que não?
- Ele é belo e mexe comigo, mas se fechou para o amor. Sinto que me quer apenas como amiga.
- E se quisesse como mulher?
- Seria muito bom. Ele é um grande amigo, me deu uma força enorme nessa turbulência e eu adoro os velhos, mas não sei... A vida não tem sido boa comigo.
- Ou você não tem sido boa com ela?
- Conte-me uma história, Sofia.
- Hum! Vamos ver... Nas minhas andanças, conheci uma cigana chamada Zíngara. Era uma mulher muito bela e sábia e só de olhar uma pessoa, enxergava-a por dentro, física e psicologicamente. Certo dia, estávamos duras, sem dinheiro algum para comermos.
“Saímos do acampamento e fomos a uma praça para aventurarmos alguns trocados: ela, lendo a aura das pessoas e eu, com um tamborete, para jogar cartas. Ninguém nos dava crédito e eu comecei a desanimar. Foi quando um homem cabisbaixo vinha em nossa direção e Zíngara estremeceu ao vê-lo.”
“Ela sentiu algo estranho nele e o abordou dizendo que via muita tristeza em seu coração e perguntou ao moço o que o atormentava. Ele parou impressionado e encarou a cigana dizendo que se sentia um fracassado. Minha amiga perscrutou ainda mais o indivíduo e disse-lhe: ‘Está sem tesão, não é macho?’ Ele se impressionou com o poder dela e perguntou-lhe como ela sabia daquilo e ela respondeu: ‘Sou uma cigana.’”
“O rapaz disse que não estava tendo sucesso com as mulheres. Era jovem e sempre foi bom de cama, mas de uns tempos até ali se sentia morto da cintura para baixo. Aí Zíngara o convidou para irmos ao acampamento e disse que lá resolveríamos o problema.”
“Chegando lá, entramos em sua barraca, sentamo-nos e ela foi logo dizendo que uma mulher havia feito bruxaria contra o rapaz. Falou que a criatura era morena e tinha uma cicatriz no braço esquerdo. Na hora, o homem gritou ‘Fátima, minha ex-mulher’! Minha amiga perguntou a ele o que acontecera e ele nos contou que foram casados durante três anos. Ela era muito ciumenta e possessiva e aquilo o sufocava por demais. Por amá-la, ele relevava todos os seus comportamentos doentios, só que chegou ao limite e eles destruíram o que ele sentia por ela. Ele saiu de casa só com a roupa do corpo e ela passou a persegui-lo e fazer cenas terríveis. Até que um dia ela lhe disse que já que ele não seria dela, também seria de ninguém. Fátima vendeu a casa e foi embora e desde sua partida, que ele não mais conseguiu funcionar com mulher alguma.”
“Zíngara era uma grande feiticeira e preparou uma beberagem e um óleo com ervas e pós que tinha consigo na mesma hora. Depois impôs suas mãos sobre os preparados e disse algumas coisas numa língua que eu não conhecia. Ela deu as porções ao consulente e lhe mandou ir para casa e beber um gole do líquido de uma em uma hora. Falou que o óleo era para ser passado em sua genitália logo após cada golada. Recomendou que ele ficasse trancado e incomunicável em casa até esgotar o conteúdo do frasco e do óleo e quando os terminasse, que se despisse e fosse ao sanitário e dissesse ‘Fátima, em nome da minha felicidade, eu me livro da sua maldição’.”
“Ela ainda lhe disse que algo impressionante aconteceria e que ele deveria ficar no banheiro até o processo acabar. Depois ele deveria tomar um banho com sal-grosso, do pescoço para baixo e beber um chá de canela. Em seguida, deveria dormir e só sair de casa quando tivesse uma ereção novamente.”
“Ele pagou os serviços da cigana e se foi. Pudemos comprar o essencial e ficamos felizes. No dia seguinte, ele voltou ao acampamento todo jovial e feliz. Sentou-se conosco e nos contou o que acontecera. Estava cético, mas mesmo assim resolveu seguir as instruções de Zíngara. A cada hora que bebia a porção e usava o óleo, a dor na genitália aumentava. Pensou até que algo estivesse dando errado e teve vontade de parar, mas era um homem disciplinado e decidiu ir até o fim. Quando terminou os dois, não se aguentava de dor e foi ao sanitário. Sentiu uma vontade insana de urinar e quando o fez, expeliu um jato escuro e viscoso. Ele nos disse que aquilo fedia muito e quando botou tudo para fora, sentiu-se tão fraco que caiu no chão desmaiado. Quando despertou, tomou o banho de sal-grosso e o chá de canela. Adormeceu e sonhou que transava com uma mulher deliciosa. Ele teve ereção e ejaculou.”
“Agradeceu a Zíngara, dizendo-lhe que qualquer coisa que lhe desse, jamais pagaria o bem que ela havia lhe feito. Ele lhe deu uma quantia mais do que generosa, e ela lha falou:’ Agora segue seu caminho, Gajão. Apaixone-se, seja inteiro e feliz’. Ele se foi contente e nós tivemos dinheiro para sobreviver alguns meses.”
- É linda, Sofia!
- E real, Margarida.

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