terça-feira, 19 de julho de 2011

Sofia - 14

 

No dia seguinte, por se sentir ainda muito triste, Margarida pede a Sofia para continuar em sua casa e a companhia lhe faz tanto bem, que ela propõe à cigana sair do hotel e hospedar-se em seu domicílio. Sofia aceita o convite e no domingo, muda-se para a habitação da amiga.
Os laços de amizade entre Sofia, Margarida, Orlando, Joventino e Eulália vão se solidificando.
Na segunda-feira, a cigana vai à barraca de Seu Joventino e Orlando para comprar algumas frutas. Ao chegar lá, é recebida com festa pelos dois e pede uvas e maçãs. Orlando a despacha e faz questão de não cobrar, dizendo que aquilo era um presente para ela e Margarida. Os três falam algumas amenidades e se despedem. Antes de ir, porém, Sofia sente que está sendo observada; que há uma energia pesada lhe sendo endereçada e aí se vira para o barraqueiro que fica em frente aos amigos e mira seus olhos com tanta força, que o homem se assusta e entontece. Assim ela identifica quem tentou prejudicar seu amigo e pede ao Universo que proteja aquela família de influências tão perniciosas.
No sétimo dia após a morte de Anselmo, é celebrada uma missa na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, às 18h00.
Estão presentes Margarida, Sofia, Orlando, os pais dele, colegas e amigos do finado e de sua filha, e a irmã Vera que não pára de olhar atravessado para a cigana. Mesmo percebendo os pensamentos e sentimentos da religiosa para consigo, Sofia faz de tudo para ignorá-los e não entrar nessa energia. Concentra-se apenas em continuar apoiando a amiga.
A celebração transcorre naturalmente, mas o padre, vez por outra, também não tira os olhos da cigana. Só que isso não a incomoda; muito pelo contrário, faz-lhe muito bem.
A missa termina e após a bênção final, o sacerdote vai cumprimentar Margarida, sem deixar de fitar Sofia. Depois ele se retira para a sacristia.
Amigos e colegas fazem fila e à proporção que vão cumprimentando a enlutada, despedem-se dela e saem. Na fila também vai a irmã Vera, que fala secamente com Margarida e quando percebe o olhar de Sofia para si, descontrola-se:
- Ta olhando o quê, Satanás?
- Respeite a dor de minha amiga e essa casa de oração, irmã – fala Sofia calmamente.
- Quem é você, cigana, para falar em respeito?
- Sofia, às suas ordens.
- Vá de retro, Belzebu! Eu sei mais do que você que aqui é uma casa de oração.
- Pois se de fato soubesse, não estaria se comportando de forma tão inadequada – retruca Sofia se alterando.
- Herege!
- Herege é a senhora, que vê maldade em tudo, que julga a todos e a tudo como se fosse a alma mais pura da face da Terra, mas olho em seus olhos, infeliz, e vejo tanto ódio, tanta inveja, tanta mesquinharia, que só me resta me compadecer de suas escolhas, perdoá-la e rezar para que você encontre ainda alguma alegria nessa vida infame que leva.
- Veem? – Vera se dirige às pessoas, possessa – Esse poder ardiloso de argumentação não vem dela, mas do Diabo que habita em seu corpo.
- Olhe-se no espelho, irmã Vera – diz Sofia. – E perceberá que o que pensa ver em mim é o que está dentro de si mesma.
- MERETRIZ!
A freira parte para cima da cigana com intenção de agredí-la fisicamente, mas Sofia é ágil, tira o corpo e Vera se desequilibra no próprio hábito, caindo no chão.
Todos ficam horrorizados com seu comportamento e é nessa hora que o vigário retorna já sem batina:
- Mas o que é isso?! Vocês não respeitam mais a casa de Deus?
- É essa Salomé, padre, que não é digna de estar aqui na igreja! – Grita Vera, apontando para Sofia – Ela tem parte com o cujo. Jogue água benta nela para ver! Exorcize a Legião que está com ela!
- Vera, componha-se! – Reclama o pároco – Senhora – ele se dirige a Sofia, gentilmente – lamento por esse desconforto. A irmã não tem estado muito bem ultimamente. Tem nervos fracos, entende? Peço que aceite minhas desculpas.
- Tudo bem, padre. Acho melhor nos retirarmos – diz Sofia.
- Concordo – fala Margarida.
Sofia, a amiga e os outros vão se retirando e Vera continua a vociferar. O padre e os sacristãos tampam sua boca com as mãos e tentam erguê-la do chão.
- Controle-se, Vera! – fala o padre energicamente – Se a cigana lhe processar por calúnia e difamação, não vou mover uma palha em sua defesa. Onde já se viu?
- Mas padre!? Ô meu santinho, até você foi enfeitiçado por aquela Dalila?
- Calada! Olhe que papel ridículo você está fazendo. Que exemplo é esse? Viu quanta gente presenciou seu escândalo? Todas aquelas pessoas podem testemunhar contra você.
- Até o senhor renegou Cristo! – Vera começa a chorar.
- Ai, meu Deus! – lamenta-se o sacerdote – “Aonde fui amarrar meu jegue?” Pedro – fala a um sacristão – Ligue para o Dr. Carlos. Peça para ele vir aqui com urgência.

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